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sábado, 5 de agosto de 2017

A arte da sedução

Fui com os putos ao circo que aterrou perto da praia. Ao lado do circo carrinhos de choque. Ambos quiseram andar. Fui comprar fichas. O moço que as vendeu tinha um ar gingão. Foi quando sorriu que vi que prendia o cigarro no espaço onde antes existia um canino. O cigarro ficava ali. Ele falava. Ria. Assobiava com o cigarro preso. Uma certa arte. O que interessa era o ar de vencedor. As miúdas riam-se para ele. Olham-no com interesse. Ele não lhes ligava muito. Tinha um ar superior. E o cigarro ali na boca a morrer lentamente. Começou o circo. O Aníbal que mostrava as habilidade com o diablo era o mesmo. Agora de fato de cetim preto, Justo. Gel no cabelo. Mandava o diablo para o ar e apanhava-o na corda. Imagino que um dia o diablo tenha caído sobre si deitando por terra o canino. Perder dentes na arte circense mostra valentia. Está explicado o ar de herói e a rendição das miúdas. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

eu ao volante


Sabem aquela altura em que chegas a um cruzamento e do outro lado também se aproxima um carro com uma senhora e Olhamos uma para a outra na certeza porém que nenhuma sabe quem tem a prioridade? Sorri e indiquei que podia passar. Ela faz o mesmo. ficamos paradas a olhar uma para a outra. Insisti para ela avançar. Ela avançou e disse adeus. Adoro quando as duvidas acabam em bem.

domingo, 25 de junho de 2017

O meu sofá

A lotação no meu sofá está lotada. Elas escrevem as tendências deste verão. Uma diz que são as calças rotas e a outra diz que são os vestidos com folhos. Sobre as pessoas que gostavam que batessem à porta, uma queria a Ana Montana e a outra a Cristina Ferreira. E a música que mais gostam, varia entre um Jose Cid, david Bowie e o despacito. Há sítios  espetaculares por este mundo fora, mas em nenhum há um sofá com este.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Lagos do meu coração


Rumei para sul em busca de sal e sol na pele e paz no espírito. Os dias correm difíceis. Mais difíceis dentro de mim do que fora, na verdade. Aos poucos vou vendo uma nesga de luz. Mas é tão tênue. 

Estar com a minha filha. Beber um copo com a S. Falarmos de tudo e de nada. Não ter horas para nada. Dormir muito. Comer pouco. Nadar até querer ver Marrocos. Ir ao mercado de Lagos ver dos peixes mais belos que já vi. A arte pública ao alcance de todos. Apanhar conchas. Muitas. Ansiar pelo senhor das bolas de Berlim com a mesma gana que esperava os namorados quando era uma adolescente. Tudo isto me ajuda voltar a ser alguém com o riso fácil. 

Estes dias valem ainda mais do que as fotografias querem fazer valer. 






quinta-feira, 8 de junho de 2017

a casa da árvore 1


 

Aluguei a casa a um senhor ‘de palavra’. Daqueles que ‘assino o contrato porque agora se faz assim, mas a minha palavra é só uma’. Um homem que sendo mais velho que o meu pai tem, tal como ele, aquela forma de ser que nos dá confiança. Não há ali a mínima dúvida de caracter. Não há como facilitar naquilo que diz. De cabelo branco e olhos nos olhos, explica-me as regras. E eu confio. E eu podia não ter assinado o contrato. Sei de que massa ele é feito. E estranho. Estranho porque das mil casas que vi, da quantidade de senhorios possíveis com que me deparei, em nenhum vi aquele caracter. Aquele olhar. Aquela força que só alguns homens possuem. ‘Homens de antigamente’, dizia-me uma amiga. Sim, é isso. E é pena que seja isso. Que hoje não encontremos mais exemplares destes na malta da minha idade, ou nos mais novos, ou nos mais velhos. Há-os. Mas poucos.

E sim, vou mudar-me para A Casa da Árvore.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

a casa da árvore

nunca fui feliz nesta casa e não me imagino a sê-lo. desatei à procura de uma nova casa numa altura onde, parece, que o mundo e arredores descobriu Lisboa e periferia. A minha decisão de mudar foi toda numa altura onde o resultado de conseguir algo foi muito mais difícil do que poderia imaginar. mas encontrei. E encontrei a casa que me diz que, talvez ali, possa voltar a sorrir. É a minha casa da árvore. Estou tão entusiasmada que até me apetece mudar o nome deste blogue para A Casa da Arvore. Tatuar A Casa da Arvore no meu ombro. Fazer aletria e colocar, em letras primorosamente feitas a canela: A Casa da Arvore.

na verdade, não há outra hipótese do que tentar ser feliz ali. Não há. não há mais sitio onde possa ser. estou oca como pode estar uma galinha pronta para o recheio. oca e preciso voltar a encher. encher do que gosto. da musica. do cinema. dos livros. da minha comida. de uma cozinha onde me sente na bancada a beber um copo enquanto espero que o forno apite. preciso de me reconstruir. fazer jantares para amigos. para mim, para nós as duas. habituar-me aos novos sons.


vou viver para um género de vivendinha, sem ninguém por cima nem ninguém por baixo. eu, ela e a arvore.

chega perfeitamente. É lá que vou sentir vontade de aqui vir mais vezes. é lá.