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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Trompete

Há duas noites que o som de um trompete rasga a noite. Não é o som de quem toca na perfeição. Mas é de quem quer tocar na perfeição. Não percebo de onde vem. O som espalha-se pela noite, deambula pelos telhados, bate nas janelas. Assim que o ouço tímido a pedir socorro, abro as minhas janelas de par em par. Fecho os olhos e sinto cada nota a tomar o seu lugar no espaço que circunda a minha casa. Depois pára. De seguida retoma. Insiste na mesma música. Às vezes nota-se uma leve melhoria. Na maioria das vezes, os erros são os mesmos. Mas eu gosto. Faz-me companhia. Quem toca não adivinha o bem que me faz. Nem sabe que eu existo. Parte da beleza da vida é esta: darmos-nos ao outro, um o outro que não sabemos que existe.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

1º dia de aulas


Primeiro dia de aulas a sério. O professor disse, olhando para a turma de meninos com medo de crescerem: 'vocês são os melhores e os maiores. Que nunca ninguém vos tente mostrar o contrário. O que quiserem fazer, serão capazes de o fazer e capazes de o fazer bem'. Todos sabemos o poder que a auto-estima tem. Se ela acreditar nela, será capaz de açambarcar o mundo com as pernas.
Filha, não pretendo que sejas a melhor, que o teu nome esteja no pernicioso quadro de honra, apenas desejo que dês o teu melhor e que percebas que a vida é mais fácil quando levada com alegria e com um certo desarrumo mental. Força amor




domingo, 27 de agosto de 2017

Leite creme

Nada me restitui mais os domingos da minha infância do que um leite creme. Minha mãe fazia religiosamente após chegar a casa da missa domingueira. Trazia consigo a benção e a paz. Mexia com calma o creme que ia engrossando e aquecia o ferro velho e quase a chamar a ferrugem na labareda da lareira. Depois vinha o cheiro do açúcar queimado que alimenta a alma. Este vai para a minha vizinha da minha casa da árvore. Porque a D. Armanda tem aquele jeito de quem faz a diferença na sua família tal como a minha mãe faz na minha.


sábado, 5 de agosto de 2017

A arte da sedução

Fui com os putos ao circo que aterrou perto da praia. Ao lado do circo carrinhos de choque. Ambos quiseram andar. Fui comprar fichas. O moço que as vendeu tinha um ar gingão. Foi quando sorriu que vi que prendia o cigarro no espaço onde antes existia um canino. O cigarro ficava ali. Ele falava. Ria. Assobiava com o cigarro preso. Uma certa arte. O que interessa era o ar de vencedor. As miúdas riam-se para ele. Olham-no com interesse. Ele não lhes ligava muito. Tinha um ar superior. E o cigarro ali na boca a morrer lentamente. Começou o circo. O Aníbal que mostrava as habilidade com o diablo era o mesmo. Agora de fato de cetim preto, Justo. Gel no cabelo. Mandava o diablo para o ar e apanhava-o na corda. Imagino que um dia o diablo tenha caído sobre si deitando por terra o canino. Perder dentes na arte circense mostra valentia. Está explicado o ar de herói e a rendição das miúdas. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

eu ao volante


Sabem aquela altura em que chegas a um cruzamento e do outro lado também se aproxima um carro com uma senhora e Olhamos uma para a outra na certeza porém que nenhuma sabe quem tem a prioridade? Sorri e indiquei que podia passar. Ela faz o mesmo. ficamos paradas a olhar uma para a outra. Insisti para ela avançar. Ela avançou e disse adeus. Adoro quando as duvidas acabam em bem.

domingo, 25 de junho de 2017

O meu sofá

A lotação no meu sofá está lotada. Elas escrevem as tendências deste verão. Uma diz que são as calças rotas e a outra diz que são os vestidos com folhos. Sobre as pessoas que gostavam que batessem à porta, uma queria a Ana Montana e a outra a Cristina Ferreira. E a música que mais gostam, varia entre um Jose Cid, david Bowie e o despacito. Há sítios  espetaculares por este mundo fora, mas em nenhum há um sofá com este.